Continuação da entrevista com Roberto J. Oliveira
Na primeira parte desta conversa, Roberto J. Oliveira nos conduziu por sua trajetória da Academia Militar das Agulhas Negras até a fronteira do Vibe Coding e da IA Generativa. Agora, aprofundamos o diálogo nas questões mais estratégicas e filosóficas: o papel do Brasil na corrida global de IA, os erros que as empresas ainda cometem, e o que sobra para os humanos quando as máquinas assumem a execução.
Editor: Você acumula dois CTOs simultâneos, Tractionfy e Pulse Brand. Como você separa o chapéu estratégico do chapéu técnico no dia a dia?
Roberto J. Oliveira: Essa separação é mais uma ilusão do que uma realidade. No contexto de empresas em crescimento, o CTO que não sabe codar perde o chão da conversa, e o CTO que só coda perde o horizonte. O que eu faço na prática é alternar o nível de abstração conforme o contexto. Numa reunião de board, falo em risco, prazo e custo de oportunidade. Num code review, falo em arquitetura, débito técnico e cobertura de testes. A disciplina militar me ajudou muito nisso: você aprende a operar em múltiplos níveis hierárquicos ao mesmo tempo, entendendo que cada nível tem sua linguagem e seu propósito.
Editor: Você organiza dois congressos nacionais, o CONAGEN e o CONACD. O que esses eventos revelam sobre o nível de maturidade do ecossistema brasileiro de dados e IA?
Roberto J. Oliveira: Revelam uma contradição interessante. O Brasil tem uma das comunidades de dados mais ativas e criativas do mundo em termos de volume e entusiasmo, mas ainda patina na maturidade institucional. Quando organizo o CONAGEN e o CONACD pela ABRACD, percebo que o mercado está sedento por conteúdo aplicado, não teórico. As pessoas não querem saber o que é um transformer, querem saber como usar um agente de IA para resolver um problema real de negócio na segunda-feira de manhã. Esse gap entre academia e aplicação é exatamente o espaço que esses congressos tentam preencher. E a cada edição, a curva de sofisticação das perguntas sobe visivelmente.
Editor: Na sua visão, qual é o maior erro que as empresas brasileiras cometem na adoção de IA hoje?
Roberto J. Oliveira: Comprar a ferramenta antes de entender o problema. É o mesmo erro de sempre, só que agora com um hype maior e um custo de ilusão mais alto. A empresa assina o contrato de uma plataforma de IA generativa, monta um comitê, faz um piloto de chatbot interno, e seis meses depois ninguém usa. Por quê? Porque ninguém mapeou o fluxo de trabalho real, ninguém envolveu as pessoas que seriam impactadas, e ninguém definiu uma métrica de sucesso que fizesse sentido para o negócio. IA não é um produto de prateleira, é uma capacidade organizacional. E capacidade se constrói com cultura, processo e dado de qualidade, nessa ordem.
Editor: O Vibe Coding democratiza o desenvolvimento ou cria uma nova camada de desenvolvedores de segunda categoria?
Roberto J. Oliveira: Depende de como você usa. Se você usa o Vibe Coding como atalho para entregar rápido sem entender o que está entregando, sim, você se torna um desenvolvedor de segunda categoria com ferramentas de primeira. Mas se você usa como alavanca para testar hipóteses, prototipar ideias e aprender fazendo, o Vibe Coding é uma das formas mais poderosas de acelerar sua curva de aprendizado que já existiu. O que eu ensino na FGV e na Cappei é exatamente isso: use a IA para construir, mas entenda o que está sendo construído. O Master Builder Level 5 na Replit não veio de apertar botões, veio de entender arquitetura, depurar erros e tomar decisões de design que a IA não toma por você.
Editor: Você é mestrando em Psicologia e Saúde na FAMERP. Como essa formação impacta sua visão sobre tecnologia?
Roberto J. Oliveira: De forma profunda e, para muitos, inesperada. Quando você estuda comportamento humano com rigor científico, começa a ver os sistemas de IA de uma perspectiva completamente diferente. Você percebe que o problema raramente é técnico, é comportamental. Por que as pessoas resistem à adoção de uma ferramenta que claramente as beneficia? Por que times de alta performance às vezes produzem tecnologia medíocre? Por que um dashboard perfeito tecnicamente não gera decisão nenhuma? Essas perguntas têm respostas na psicologia, não na engenharia. Minha pesquisa na FAMERP, com orientação do Prof. Dr. João Marcelo Rondina, foca exatamente na intersecção entre agentes de IA e curvas de aprendizado, que é onde tecnologia e comportamento se encontram de forma mais visceral.
Editor: Gestão de projetos em ambiente de alta incerteza tecnológica: o que os frameworks tradicionais como PMP e Scrum ainda acertam, e o que ficou obsoleto?
Roberto J. Oliveira: O que ainda acerta: a disciplina de comunicação, a cultura de retrospectiva e a clareza de papéis. Isso é atemporal. O que ficou obsoleto: a ilusão de que você pode planejar com precisão em horizontes longos quando a tecnologia muda a cada duas semanas. Num projeto de IA generativa hoje, um sprint de duas semanas já pode ficar desatualizado se sair um novo modelo com capacidades que mudam sua arquitetura inteira. O que eu pratico e ensino é uma abordagem que chamo de planejamento de ciclo curto com âncoras longas: você mantém a visão de onde quer chegar, mas planeja a execução em janelas de no máximo uma semana, com checkpoints de realidade constantes. A formação em gerenciamento de projetos pela FGV me deu a base, a prática me forçou a adaptar.
Editor: Qual foi o projeto mais difícil da sua carreira e o que ele te ensinou?
Roberto J. Oliveira: Foi um projeto de BI em uma empresa de médio porte onde o problema declarado era técnico, mas o problema real era político. Fui contratado para implementar um data warehouse e entregar dashboards executivos. Três meses depois, percebi que havia três grupos internos com visões completamente incompatíveis sobre quais métricas deveriam guiar o negócio. Cada grupo queria que o sistema validasse a sua narrativa. Tecnicamente, o projeto estava impecável. Humanamente, estava numa guerra. O que aprendi: a entrega técnica é o menor dos problemas. Antes de escrever uma linha de SQL ou modelar um cubo, você precisa entender quem são os stakeholders reais, quais são seus interesses e como a informação vai ser usada ou distorcida. Hoje, qualquer projeto meu começa com um mapeamento político antes de um mapeamento técnico.
Editor: Como você vê o posicionamento do Brasil na corrida global de IA nos próximos cinco anos?
Roberto J. Oliveira: Com otimismo cauteloso. O Brasil tem ativos que poucos países têm: uma das maiores populações digitais do mundo, uma cultura de adaptação e criatividade que é genuinamente diferenciada, e um mercado interno grande o suficiente para validar produtos antes de escalar globalmente. O que nos falta é consistência de política pública, acesso democrático a infraestrutura de computação e uma cultura corporativa que tolere o erro como parte do processo de inovação. A ABRACD, onde atuo como pesquisador de tecnologias emergentes, é parte de um esforço coletivo para construir essa massa crítica. Não vamos liderar o desenvolvimento de modelos fundacionais, isso é realista. Mas podemos liderar a aplicação de IA em contextos específicos: agronegócio, saúde pública, educação, mercado financeiro. Nesses verticais, temos dados, temos problema e temos urgência.
Editor: Você tem uma trajetória que vai da disciplina militar ao universo hacker do Vibe Coding. Existe uma tensão entre esses dois mundos?
Roberto J. Oliveira: Existe, e ela é produtiva. A Academia Militar me ensinou que disciplina sem propósito é burocracia, e propósito sem disciplina é wishful thinking. O universo hacker me ensinou que as melhores soluções emergem quando você questiona as regras e testa os limites do sistema. A síntese que encontrei ao longo dos anos é o que chamo de mentalidade hacker com ética de engenheiro: você explora, experimenta e quebra coisas, mas com responsabilidade sobre o impacto do que você constrói. No contexto da IA, isso é especialmente crítico. Estamos construindo sistemas que vão influenciar decisões reais sobre pessoas reais. A leveza do Vibe Coding precisa ser temperada pelo rigor de quem entende as consequências do que está sendo feito.
Editor: Se você pudesse dar um conselho ao jovem cadete de Agulhas Negras que você foi, sabendo tudo o que sabe hoje sobre tecnologia e IA, qual seria?
Roberto J. Oliveira: Aprender a aprender é mais valioso do que aprender qualquer coisa específica. Na Academia, você aprende dentro de um sistema muito bem definido: há um manual, há uma hierarquia, há um protocolo para tudo. Isso é extremamente eficiente para o contexto militar. Mas no mundo da tecnologia, especialmente no mundo da IA, o manual muda todo mês. A habilidade mais crítica não é dominar uma linguagem de programação ou uma plataforma específica, é a capacidade de entrar num novo território de conhecimento, mapear o que importa, absorver o essencial rapidamente e aplicar com discernimento. Essa habilidade, combinada com a resiliência que a formação militar desenvolve, é o que me permitiu transitar de analista de sistemas para BI, de BI para IA generativa, de professor para pesquisador, sem perder o fio condutor. O conteúdo muda, o método permanece.
Roberto J. Oliveira segue ativo na fronteira da inteligência artificial aplicada, entre salas de aula da FGV, congressos nacionais e os terminais de código onde o futuro do trabalho está sendo construído, uma linha de cada vez. Para acompanhar sua produção, acesse robertooliveira.com.br.
A pesquisa em tecnologias emergentes que fundamenta parte das reflexões desta entrevista é desenvolvida em parceria com a Associação Brasileira de Ciência de Dados e IA (ABRACD). Para quem atua em estratégia tecnológica e transformação digital, a Cappei oferece serviços de CTO as a Service e capacitação executiva. E para quem quer entrar na prática do desenvolvimento assistido por IA, vale acompanhar a newsletter gratuita sobre Vibe Coding e conhecer a plataforma Replitfy.

